31/05/2018

25 de maio foi o Dia Nacional da Adoção

Recentemente pedimos no nosso Instagram para que os leitores citassem alguma matéria ou reportagem que gostariam de rever/reler. Um dos pedidos foi a matéria sobre as mães, que produzimos em maio 2016, no início da Revista, em nossa 3ª edição. Três das cinco mães que ilustraram a capa são maães adotivas e por isso queremos compartilhar também aqui, no site, suas emocionantes histórias.
A jornalista que escrevia na época para a Evip, a Greici Siezemel, conversou com essas mães e produziu o conteúdo, confira:

 

1. As joinhas da mãe Ju!

Carinhosa! Se perguntassem como definir Juliana Alegretti em uma palavra seria assim e não é difícil de chegar a essa conclusão: basta ficar cinco minutos observando a maneira como ela cuida dos dois filhos, Pedro Allan e Vitória. É muito amor para dar! 

“Ser mãe é a plenitude, é um sentimento que não se explica em palavras, é uma realização plena. Poder acordar de manhã e ficar olhando estes rostinhos é tudo de bom, não tem preço”.

 

 

Juliana cria o casal sozinha e dá conta perfeitamente da tarefa. “Nos primeiros tempos não foi fácil, a avó paterna deles ajudou bastante, ela ficava com eles enquanto eu trabalhava e os buscava na escola, foi assim até eles crescerem um pouquinho”, conta. A família veio para Santo Augusto porque Juliana queria que seus filhos tivessem mais oportunidades de estudo, então fez uma escolha por eles — sempre coloca os filhos em primeiro lugar. “Claro que bate aquela insegurança, às vezes eu pensava que alguma coisa poderia dar errado, porque eu estava sozinha e a responsabilidade é maior. Foi e ainda é um desafio, tens que ter um pulso mais forte para poder contornar, mas a batalha é vencida cada dia um pouquinho”, diz a mãe.

 

Juliana teve Pedro com 27 anos e tinha o sonho de ter mais um filho, mas que dessa vez fosse adotado. Foi aí que surgiu a Vitória. “Meu ex-marido concordou em adotar, mas quem correu atrás de tudo fui eu. Desde o dia em que entrei na fila de adoção, demorou dois anos para eu ter ela. Ela estava na antiga ‘casa de passagem’, que abrigava crianças que poderiam ser destituídas do pátrio poder, daqui de Santo Augusto, e veio com um mês para a nossa casa. No primeiro ano que ficamos com ela sabíamos que a mãe biológica poderia querer ela de volta, então, durante um ano não dormi descansada”, lembra Juliana, que cultivava a ideia de adotar um filho já fazia algum tempo. 
O sonho da massoterapeuta, que batalha diariamente para sustentar os dois, é adotar mais um filho futuramente. “Se eu pudesse, eu adotaria uma creche, eu tenho muito amor para dar. A minha relação com a Vitória é muito forte, ela é filha mesmo, então eu acho que quantos mais viessem, mais seriam filhos também. Eu sentiria a mesma coisa por todos, sem distinção nem nada”, relata ela, que tem esse projeto de vida para quando melhorarem as condições.
 
 
 
A fórmula mágica da Ju!
“A fórmula é bastante diálogo, porque eu tive uma mãe assim e sigo os passos dela, copio o que foi bom. Outra coisa que eu penso também é que eles são tesouros que Deus confia para gente e que vamos ter que prestar conta de como cuidamos dessas joinhas. Temos que tentar moldar o caráter enquanto eles estão com a gente, porque depois que batem as asinhas, já estão formados”. 
 
 
 
 
2. Foi amor à primeira vista!
 
A história de Jane Maria Flores Irber, de São Martinho, se confunde com a da sua amiga Edelweiss Wachter, que adotou duas irmãs de uma família e escolheu Jane para ser madrinha de uma delas. Como sempre foram muito próximas, Edelweiss convidou Jane para visitar a casa da mãe biológica de suas filhas, que vivia em condições precárias e havia ganhado um bebê. “Quando peguei a menininha no colo e olhei para ela, fiquei encantada. Logo que cheguei em casa, comentei isso com meu marido, Gaspar, e falei que a criança teria um futuro complicado. Para a minha surpresa, ele sugeriu que a adotássemos. A partir daquele momento eu já me sentia mãe, mas nunca comentamos isso com alguém, era algo entre eu e ele. Nós ficávamos apenas sonhando”, lembra a professora e enfermeira. 
 
Passaram-se alguns dias e as duas amigas foram visitar a recém-nascida, mas Jane não teve coragem de falar nada para a mãe do bebê. “Voltamos decepcionadas de lá e eu fiquei pensando na menina 24 horas por dia, imaginando o que ela estaria fazendo. Os meses foram passando e a minha amiga falou que a situação na casa da família estava difícil e que, provavelmente, o casal iria entregar o bebê para adoção”, lembra. 
 
Certo dia, a professora chega em casa e vê sua amiga conversando com seu marido. Ela avisou que tinha alguém ali fora para eles, que a família iria entregar o bebê, pois não tinha condições de criar. Jane foi até o carro e voltou com a criança no colo. Ela e seu marido logo encaminharam os papeis para adoção e deu tudo certo. “Antes dela eu nem pensava em ter filhos, ou adotar, e acabamos ganhando um presente. Minha filha chegou para nós quando tinha cinco meses e como não tive direito a licença-maternidade na época, precisei me organizar para cuidar dela e trabalhar na escola”, conta Jane.
 
O casal deu o nome de Paola à menina e quando ela tinha dois aninhos, Jane engravidou de Gustavo. O amor entre eles sempre foi o mesmo, sem distinção.  “Enfrentamos alguns problemas de preconceito, gostaríamos que isso não acontecesse com outras famílias. Às vezes nos perguntavam ‘qual é o de vocês?’, falando inclusive na frente das crianças, mas nossa relação sempre foi bem resolvida, pois desde pequena eu contei para ela como tudo aconteceu, assim como para o Gustavo”, destaca.
 
 
Jane conta que os dois sempre foram tratados de forma igual e que eles têm muito carinho um pelo outro. Os irmãos também sempre foram bem instruídos para responder às perguntinhas inconvenientes que rugiam. “Sempre foi falado, explicado, e alertávamos ele que se alguém perguntasse: ‘é tua irmã?’, era para ele falar que sim e pronto”, revela Jane.
 
A relação de Paola com as filhas de Edelweiss, que são suas irmãs biológicas, é muito boa, é um amor de família misturado com amizade. As meninas passaram praticamente a infância juntas, ainda saem e se visitam, mas cada uma tem sua família. 

Hoje Paola e seu irmão Gustavo moram em Santa Maria. Um fato curioso é a semelhança de Jane com sua filha. “Às vezes entramos nas lojas, eu e meus dois filhos, e falam que ‘a menina é a cara da mãe’ e que ele deve ter puxado pelo pai. Ela sempre se orgulhou de ser parecida comigo e eu com ela!”, conta a professora.

 

Sobre a adoção, Jane frisa a importância da atitude. “Nós gostaríamos que não tivesse esse preconceito. A sociedade tem muito medo da adoção, do comportamento das pessoas depois. Muitos falam: ‘como tem coragem de adotar?’ Eu já penso: ‘ainda bem que tem alguém com coragem, pois as crianças conseguem viver melhor” , ensina.  
 
 
 
3 Clarinês e Maria Valentina: uma escolheu a outra!
 
Quem conhece a história de Clarinês Hames e sua filha, Maria Valentina, tem certeza de que a vida as uniu. A sintonia entre elas, as características e a maneira de agir tão semelhante são marcas que não têm como passar despercebidas. 
 
Quando Clarinês olha para trás e vê aquela mulher que nem pensava em ter filhos, que tinha outras prioridades na vida, percebe a mudança que sua filha foi capaz de fazer em tão pouco tempo. “Teve um período muito longo em que eu não queria ser mãe. Eu comecei a pensar na ideia de ter filhos quando tinha mais de 30 anos e só depois de começar a fazer terapia”, conta a professora de Biologia que, depois de decidir ser mãe, optou pela produção independente. Clarinês tentou engravidar, mas como não deu certo logo, ela não quis fazer inseminação e resolveu que iria adotar uma criança. 
 

 

Fila de adoção ou fila da ansiedade?

Quando entrou na fila, a única exigência que ela colocou foi que o bebê tivesse até dois anos e fosse saudável. Clarinês tinha 40 anos e não esperava que só receberia sua filha cinco anos depois. “É uma ilusão achar que é fácil e rápido. A expectativa da chegada foi muito intensa no primeiro ano, depois eu comecei a diluir isso um pouco, até para poder tocar a vida, porque poderia não dar certo”, conta. 

 

E foi numa bela manhã, depois de um feriado de 21 de maio, quando a professora chegava de viagem – ainda quando morava em São Vicente –, que o seu celular tocou e uma mulher da vara da infância lhe informou que o dia da adoção poderia estar próximo. “O susto foi tão grande que eu falei sem pensar para ela: ‘sexta-feira eu passo aí”. Daí ela disse: ‘não, você precisa vir hoje, porque essa criança está no hospital, ela vai dar alta nos próximos dias e o juiz não vai a deixar passar por um abrigo. Ela vai do hospital para família adotante’. Eu disse então que em meia hora ligava. Eu fiquei sentada esperando baixar a adrenalina, meio paralisada. Então fui para a sala do diretor e disse: “acho que estou de licença-maternidade”, recorda.
 

Clarinês viajou de São Vicente à Ijuí e quando chegou ao fórum recebeu o prontuário da Maria Valentina. O médico informou que ela teria uma noite para analisar se ficaria ou não com o bebê. “Ele disse que eu não poderia nem vê-la antes disso, e falou para mim: ‘ela não é um par de sapatos, que você olha e diz que você não gosta. Ela não pode ter mais uma rejeição, porque se ela estivesse na sua barriga tu também não poderia olhar para ela. A criança está lá, bem cuidada, e você tem essa noite para decidir’. Eu voltei para casa, analisei tudo e no outro dia fui até o fórum para assinar os papeis e confirmar a adoção. O juiz me deu então uma autorização para vê-la. Fui ao hospital acompanhada da assistente social, era o meu parto!  Quando cheguei ela estava no berço aquecido, só de fralda. Embaixo do berço tinha um rádio ligado na AM, para que ela tivesse a sensação de ter gente ao redor, pois como era uma criança para doção, ninguém podia vê-la”, lembra a mãe, que na mesma tarde foi fazer o enxoval da Maria. Passaram-se dois ou três dias, a menina completou dois quilos e Clarinês levou ela para casa. “O dia em que ela chegou eu nunca vou esquecer, ela tinha apenas cinco dias e pesava  1,7 quilo ”, se emociona a mãe. 

 

Depois de levar sua filha para casa, o mundo de Clarinês se transformou e embora ela tivesse medos, foi vencendo a batalha diariamente. Após ter passado o período da licença-maternidade, a professora foi removida para Santo Augusto e acabou vindo morar na cidade para conseguir ficar mais tempo com Maria Valentina, pois ela percebeu que não podia continuar a sua rotina do jeito como era antes. “As prioridades mudam quando temos filhos”, destaca.
 
As duas foram criando laços muito fortes e a maturidade de Clarinês, é um diferencial na criação da menina. “Tem o lado bom e o lado não tão bom (não é o lado ruim!) de ser mãe aos quarenta e poucos. O lado bom é que você já viveu toda a sua juventude, já fez muitas coisas: já estudou, já está estabilizada, já viajou, já foi nas baladas que queria. Então agora é uma nova fase, que é a fase de ficar um pouco mais em casa, em que um programa maravilhoso é você visitar uma amiga que tem criança para as filhas poderem brincar juntas. O não tão bom é que você não tem mais tanta disposição assim para brincar e correr em alguns horários do dia. Outra coisa que acontece, que não me incomoda, é que as pessoas me perguntam se ela é minha neta. Eu tive ela quando a maioria das mulheres estão sendo avós e acho que a gente faz certas coisas de avós, pela idade mesmo”, analisa.  
 
Clarinês sempre conversou com a filha sobre a adoção. A primeira conversa foi quando ela tinha aproximadamente um aninho e a mãe sempre explicou que seus pais biológicos não puderam cuidar dela. Maria Valentina, dá uma aula de maturidade quando perguntamos se ela tem duas mães. “Não tenho duas, eu tinha duas. Eu tinha uma outra mãe que eu nasci na barriga”. Questionamos: “e a Clarinês é a mãe do que?” Ela responde: “a mãe do nascimento”. 
Clarinês completa: “Ela é muito cuidadosa comigo, carinhosa, espontânea, afetuosa."
 
 
“Chegar em casa depois de um dia de trabalho tem outro sentido depois que você é mãe.”