14/08/2017

Matéria destaque da revista: FEMINISTAS E EMPODERADAS!

 

Relaxa, o feminismo não quer fazer com que as mulheres dominem o mundo!

por Greci Siezemel (matéria publicada na Revista Evip edição 4 - jul/ago 2016)

 

Taís acordou animada hoje, afinal, o dia de sol em meio há tantos de chuva é ideal para usar aquela saia nova que ainda não foi estreada. Mas se usar a saia um tanto acima do joelho sabe que vai ouvir piadinhas machistas o dia todo. Melhor não arriscar e usar um jeans qualquer.

 

Bruna trabalha quarenta horas semanais em uma empresa de construção civil e seu colega, Paulo, exerce as mesmas funções que ela, cumpre a mesma carga horária, mas no fim do mês recebe bem mais do que Bruna. Ela foi questionar o porquê disso ao seu patrão hoje, logo que chegou ao trabalho. Não adiantou.

 

Marta chegou em casa cansada da manhã de trabalho e ainda precisou preparar o almoço e arrumar as crianças para ir à escola. Seu marido, Oscar, descansa e assiste TV enquanto a esposa “se vira nos 30”. Mas por que ele vai se sentir culpado?  Foi Marta quem insistiu tanto em trabalhar fora, agora ela que aguente a correria. Além do mais, ele acha que tarefas domésticas são mesmo funções femininas.

 

Ana saiu mais cedo do curso de inglês, ficou com medo de voltar sozinha à noite, já que não foram poucas as vezes em que foi provocada por engraçadinhos na rua. Enquanto isso, Rafaela chora no quarto, porque o namorado a chamou de burra e disse que ela tem o peito caído, depois de uma discussão.

 

Quantas Taíses, Brunas, Martas, Anas e Rafaelas vemos por aí! Quantas vezes nós, mulheres, sofremos preconceito e somos vítimas de violência, que às vezes passam até despercebidas! Diariamente, elas vivenciam situações como as descritas acima e ficamos sem saber o que fazer, pois nossa sociedade é machista: desrespeita, oprime e ameaça o sexo feminino. Alguns pensam que o fato de a mulher hoje estar mais inserida do que há anos já é o suficiente, mas não: nós queremos respeito, principalmente de nossos parceiros, queremos poder sair de casa à noite sem medo, usar a roupa que bem entendermos, falar o que pensamos. Queremos valorização no trabalho, igualdade salarial, o fim da cultura do estupro. Falando nisso, quando alguns fatos chocantes vêm à tona, como o da menina vítima de estupro coletivo no Rio, percebemos que ainda há muito o que se discutir, pois algumas pessoas (amigos e familiares nossos, inclusive) ainda acham que existem justificativas para barbáries como essa.

 

Primeiramente, precisamos refletir. É necessário compreender e enxergar que o estupro é um ato máximo da violência, e que, além dele, existem pequenas ações de subordinação, submissão e poder que também configuram violência e que precisam ser identificadas e combatidas. E aí surge o feminismo! Calmaaaaa: lendo essa matéria você vai entender que ele não é um bicho de sete cabeças, não é um ataque ao sexo masculino, pelo contrário, você vai perceber como o empoderamento feminino é bom para a sociedade como um todo.

 

Um problema histórico

É preciso olhar para trás para entender como se instituiu a desigualdade no tratamento dado a homens e mulheres em função de diferenças biológicas, pois se trata de uma constante na história humana. Para compreender um pouco mais sobre como isso aconteceu, a professora Joice Graciele Nielsson, do curso de Direito, da Unijuí que é mestre em Direitos Humanos e está concluindo doutorado em Direito Público –, explica que, apesar de termos referências a algumas sociedades matriarcais, desde cedo o patriarcado se constitui como o principal modo de organização social, aliado ao capitalismo como modo de organização econômica. “Sociedades patriarcais são aquelas que se estruturam a partir dos patriarcas, ou seja, homens chefes de família, em função dos quais todo o restante da vida social e familiar se organizava. Desse modo, toda a estrutura social, econômica e, inclusive, legal das sociedades foi estruturado para perpetuar o patriarcado, ou seja, a dominação masculina, e mais do que isso, tornar essa dominação algo natural”, destaca ela.

 

Do ponto de vista cultural, passou a ser considerado natural que as mulheres ocupassem um lugar de submissão (e que este lugar fosse o espaço doméstico), e o homem, ao contrário, ocupasse os espaços públicos de tomada de decisão. A cultura e a legislação perpetuou tal distinção e impediu que as mulheres participassem sobre o debate e as decisões da vida politica e coletiva: mulheres não votavam (o que só se alterou a partir de 1934), não participavam de reuniões, não ocupavam espaços de poder, não participavam da política.

 

O direito também se moldou a tais propósitos: considerava que as mulheres eram incapazes civilmente sem a presença de um pai ou marido (o que só mudou, no Brasil, a partir de 1964), não permitia que as mulheres recebessem herança ou gerissem seus próprios bens, tolerava a violência de gênero como crime de honra, permitia o rompimento do casamento por parte do marido em caso de desonra da mulher, dentre muitas outras situações. “Passa-se a considerar natural, portanto, que o homem ocupe os espaços de tomada de poder e de controle, que é financeiro, político, emocional e inclusive físico (controle sobre o corpo da mulher), enquanto esta fica confinada ao espaço doméstico e às tarefas (até hoje não reconhecidas e não remuneradas) e do cuidado (das crianças, dos doentes, das roupas, da limpeza da casa). E para justificar tais situações surgiram uma série de movimentos pretensamente científicos, alardeando, principalmente, a maior racionalidade masculina e a irracionalidade feminina, e todos os adjetivos que daí advém até hoje”, explica Joice.

 

É um longo processo que Foucault chamará de normalização e normatização das condutas. O patriarcado passa a ditar as regras para se perpetuar enquanto sistema de poder, e tais regras começam a ser reproduzidas sem questionamento e, aos poucos, passam a ser consideradas normas e legitimadas por todas as esferas da sociedade, em um processo de normalização e normatização de comportamentos, sentimentos e condutas.

 

Joice ressalta que um exemplo clássico da dominação patriarcal, dentre outros, está na linguagem: nossa linguagem considera, ainda hoje, o masculino como o modelo universal, como o padrão que inclui e representa a todos e todas, e o feminino como um adendo, uma espécie de dependente moral do homem, que só existe em função deste, como bem demonstram os conceitos de homem e mulher vinculados em muitos dicionários ainda em circulação. 

 

 

Feminista nata

 

O questionamento e o inconformismo a respeito das desigualdades e injustiças que existem em nossa sociedade sempre fizeram parte da vida de Joice, 33 anos. Esta inquietação levou-a a iniciar militância social no Movimento Nacional dos Direitos Humanos. A questão da desigualdade no tratamento entre homens e mulheres sempre foi uma das situações que mais a incomodava, muito pelo fato de ela vir de uma comunidade pequena e interiorana, em que o machismo, a violência e a falta de perspectiva das mulheres eram persistentes. Nesse sentido, Joice logo se aproximou de movimentos feministas e passou a integrar a luta em busca de igualdade entre homens, mulheres e, mais que isso, entre todos os seres humanos, independente de questões de gênero, raça, sexualidade, classe social, religião ou qualquer outra coisa que nos diferencia.

 

À medida em foi se aprofundando nos estudos, pôde conciliar suas pesquisas acadêmicas com as temáticas de interesse. Fez mestrado focado nos direitos humanos e, agora, no doutorado, pôde aliar a construção de uma tese com o tema que a define enquanto cidadã: a vinculação histórica entre questões de gênero e justiça.

 

A partir da sua atuação profissional como docente do curso de Direito da Unijuí, teve a oportunidade de desenvolver pesquisas sobre violência doméstica nos municípios em que a universidade atua, com a participação de alunos pesquisadores. Joice integra o Núcleo de Estudos em Gênero da Unijuí, o Projeto de Extensão Cidadania para Todos, que atua em escolas de Ijuí e região, abordando diversos temas envoltos à cidadania, (no caso dela, aborda especificamente questões de sexualidade e gênero com alunos e professores); também tem organizado e participado de uma série de eventos na Universidade e região, abordando as temáticas de gênero e feminismo; no semestre que vem, vai ministrar a disciplina “Direito e Gênero”, que será uma das primeiras da Unijuí a abordar especificamente questões de gênero.

 

Além disso, a professora tem produzido e publicado artigos científicos em revistas respeitadas sobre estas temáticas. Joice consegue aliar a atuação profissional e aprofundamento teórico com a militância feminista e recebe o total apoio e incentivo do seu esposo, Nelson Copeti, que é seu parceiro de luta feminista. 

 

 

A importância de debater o feminismo

 

O feminismo é um movimento de resistência, de questionamento e de luta contra a situação de desigualdade e de opressão na qual as mulheres estavam relegadas. Apesar de não ser um movimento recente, começou a se tornar organizado a partir da luta pelo sufragismo (direito ao voto) no final do século XIX e inicio do século XX (importante lembrar que na maioria dos países do mundo as mulheres conquistaram o direito de votar apenas nas primeiras décadas do século passado, ou seja, menos de 100 anos atrás), e se consolidou enquanto movimento prático e intelectual a partir dos anos 1970 do século passado. “A partir de então, as mulheres começaram a produzir um movimento sistemático de questionamento da situação de desigualdade, do patriarcado, da opressão, da violência, e a se colocar enquanto protagonistas de sua própria historia, de sua vida e de seu conhecimento”, salienta Joice. A primeira bandeira de luta foi a supressão de legislações que perpetuavam as desigualdades, incluindo-se aí o debate sobre questões de liberdade sexual, direito de escolha, igualdade de oportunidades, dentre muitos outros temas.

 

                A partir de então, muito se tem avançado, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. “O feminismo é um luta por igualdade, e esta luta interessa a todos que querem viver em uma sociedade melhor. É uma luta pela liberdade, ou seja, para que cada mulher possa ter a liberdade de escolher de que modo vai viver sua vida, se vai ou não namorar, casar, ter filhos, enfim, a possibilidade de ser livre para construir sua própria historia é o objetivo fundamental. Para isso, é necessário que a sociedade permita e respeite tal liberdade e as escolhas que cada mulher faz sobre seu corpo, seus sentimentos e sua vida”, destaca a professora.

 

                Assim, percebemos que o feminismo é extremamente importante ainda hoje. De acordo com Joice, ainda convivemos com uma série de desigualdades, preconceitos e discriminações, que se manifestam, principalmente, em três campos fundamentais:

a) No campo da política e nos espaços de poder: mulheres têm uma representação de 10%, em média, nos cargos de poder eletivos, e menos ainda em espaços de gestão, como secretarias, ministérios, ou cargos de chefia. Essa situação se repete no mundo do trabalho: mulheres ganham, em média, 30% menos que os homens desempenhando as mesmas funções, e ocupam cargos de gestão e chefia em menos de 5% das empresas, apesar de terem estudos muitas vezes superiores.

b) No campo da feminização da pobreza: ou seja, as mulheres e seus filhos são as pessoas mais atingidas pela pobreza, miséria e suas consequências no Brasil, considerando que os maridos/pais muitas vezes os abandonam.

c) No campo da violência: esta talvez seja a manifestação mais cruel da persistência do machismo e do patriarcado em nossa sociedade, e o pior: esta violência ainda parece naturalizada e não choca a sociedade. Dados demonstram que, no Brasil, no período de 2001 a 2011 ocorreram mais de 50 mil feminicídios, o que equivale, em média, a 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia, aproximadamente. Destas, segundo a pesquisa, a imensa maioria foram decorrentes de violência doméstica e familiar contra a mulher, sendo que um terço teve o próprio domicílio como local de ocorrência. Sobre a violência não letal, o Mapa da Violência (abaixo) revela que em 2014 foram atendidas 223.796 mulheres vítimas de diversos tipos de violência, sendo que “duas em cada três dessas vítimas de violência (147.691) foram mulheres que precisaram de atenção médica por violências domésticas, sexuais e/ou outras”, o que significa que, “a cada dia de 2014, 405 mulheres demandaram atendimento em uma unidade de saúde por alguma violência sofrida”, em sua grande maioria, por parceiros ou ex-parceiros, dentro de suas próprias residências. Fazendo as contas, a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente em nosso país. Quando falamos em violência sexual, a situação não muda muito, com o agravante de que a culpabilização da vítima é ainda o foco principal, ou seja, não há uma condenação moral da violência ou do estupro, mas sim, da própria vítima.

 

Sim, ainda há muito que se falar e discutir. “Eu questiono: será que não nos incomodamos com uma sociedade que ensina homens a bater e mulheres a apanhar? Ensina homens a estuprar e mulheres a se cobrirem e se esconderem? O feminismo é sim importante para todos os que lutam por uma sociedade melhor, afinal, que mundo será reproduzido por crianças que vivenciam violência doméstica dentro dos seus lares (e 70% dos lares brasileiros têm esse tipo de situação), seria um mundo de paz, de boa convivência? Dificilmente. Se alguém não se incomoda com essa situação, então sim, poderá ser capaz de dizer que o feminismo não é importante”, reflete Joice. 

 

 

Desconfundindo o feminismo

Nosso mundo é tão colonizado pela visão masculina, que até o feminismo é visto, pelas próprias mulheres, de uma forma pejorativa, negativa ou masculinizada. Isso faz com que muitos tenham uma ideia errada sobre o movimento. “Inicialmente é preciso desmistificar essa visão negativa sobre o feminismo, compreendendo que ele não é um movimento único, homogêneo e uniforme, ou seja, o que existem são mulheres, diferentes, cada uma lutando por melhoria nas suas vidas, por igualdade e liberdade, dentro da diversidade de vida que compõe o universo da vida das mulheres. Apesar da diversidade de contextos e situações de vida, a opressão é sim uma constante, e isso une as mulheres e os homens que queiram viver em um mundo mais igualitário”, explica a professora.

 

Ao contrário do que alguns pensam, NÃO, o feminismo não quer fazer com que as mulheres dominem o mundo! Ele é uma luta por IGUALDADE, não quer inverter a balança da opressão e passar a oprimir os homens. O feminismo quer, simplesmente, construir um mundo em que as pessoas tenham igualdade no acesso a bens e direitos, independente de sua sexualidade e gênero. É uma luta por LIBERDADE, para que as mulheres e os homens possam viver a vida que escolheram, sem opressão, pressão e impedimentos, e serem felizes desta forma. 

 

Se você NÃO concorda que:

  • Matar ou bater em uma mulher é considerado algo normal;
  • Objetificar o corpo de uma mulher é normal;
  • Que elas são responsáveis pelo cuidado com os filhos e ainda pela satisfação das “necessidades” sexuais do marido (o prazer feminismo é um tabu. Muitas mulheres, além de manterem relações sexuais por obrigação, ainda fingem orgasmo pra satisfazer o parceiro).
  • Que mulheres têm de acumular, duplas, triplas ou quadruplas jornadas, porque além de trabalhar fora são responsáveis exclusivas pelas tarefas domésticas. “Ouço de muitos homens, que estes costumam “ajudar” suas parceiras. No entanto, o ato de ajuda pressupõe uma bondade e concessão de quem o faz, ou seja, eu ajudo porque sou bom, sou consciente, mas a responsabilidade mesmo, independente da ajuda bondosa do companheiro, ainda é exclusiva da mulher”, alerta Joice. 

--- >>> VOCÊ TAMBÉM DEVE SER FEMINISTA!

 

E ser feminista não implica necessariamente em ser ativista. “O ativismo é uma decisão pessoal, uma tomada de atitude de participar de movimentos sociais. Ser feminista significa, acima de tudo, se importar com todas estas injustiças, considerar que um mundo em que homens e mulheres nascem com destinos desiguais, traçados a partir de sua configuração biológica, é um mundo injusto e que pode e deve ser transformado. Esta transformação será importante para todas as pessoas que vivem neste mundo e passa pelas pequenas atitudes de cada um de nós”, afirma a professora.

 

                O desconhecimento por parte de algumas pessoas em relação ao feminismo prejudica a causa. Muitas mulheres dizem: “Não sou obrigada a ser feminista; feministas são mal amadas; feministas odeiam a maternidade; feministas são feminazis; não sou feminista, ou feminina”, mas elas deveriam pensar que criticar o feminismo e as feministas se beneficiando das vantagens que elas ajudaram a conquistar (direito ao voto, ao trabalho, ao estudo, à gestão de seus próprios bens e de seu próprio corpo, oportunidade de fala, respeito, dignidade, direitos...) é algo absolutamente injusto e desonesto. Claro que ninguém é obrigada a ser feminista, até porque, mulher nenhuma é obrigada a nada, justamente por causa da luta feminista.

 

“A liberdade de fazer suas próprias escolhas é imprescindível à luta feminista, por isso mulheres hoje podem tomar os rumos de sua própria vida em suas mãos e tais escolhas incluem, inclusive, ser feminista ou não, ser bela, recatada e do lar, ou não, ser mãe, ou não. Enfim, o feminismo não obriga ninguém a nada, quem faz isso é o machismo. Feministas não odeiam a maternidade, apenas querem que ela seja uma escolha, e não uma obrigação. Tanto é assim que leis como a do aumento licença maternidade para seis meses, ou a que permite a amamentação em locais públicos, são lutas feministas. Agora me assusta que ainda, em pleno século XXI, tenhamos que ter leis para permitir que mulheres amamentem em locais públicos. Isso me faz questionar quem realmente odeia a maternidade? Que sociedade tolera exposição do corpo feminino enquanto objeto sexual (vide o carnaval, por exemplo), mas não tolera a amamentação, um ato de amor que representa a vida? Que sociedade é essa que paga salários menores às mulheres porque elas engravidam? Essa sociedade para mim é que tem sérios problemas e precisa, com urgência, de cada vez mais feminismo”, sintetiza.

 

Homens também podem ser feministas...

É importante que homens debatam tais questões, porque o machismo e o patriarcado também pesam sobre eles. Por exemplo, possivelmente, a maioria dos homens não gosta de ser comparado a um estuprador ou agressor em potencial, pois é isso que se diz quando se considera a naturalização do estupro e da violência.

 

Machismo: um problema cultural

Para Joice, a cultura define os papéis e estereótipos de gênero e vai perpetuando as injustiças da nossa sociedade. Essa perpetuação começa na infância: ainda distribuímos roupas cor de rosa, bonecas e panelinhas para as meninas, e bolas carrinhos e armas aos meninos. Que mensagens passamos a eles? Que cuidado com os filhos e com a casa são coisas de menina, e que atividades agressivas e do espaço público (fora da casa) são coisas de menino. Ora, cuidar de um filho é tarefa apenas da mãe? “Ainda ensinamos nossas meninas a serem princesas e achamos isso o máximo, mas, afinal, quem são as princesas? São aquelas que esperam e vivem em função do príncipe encantado que lhes fará felizes. Ficam bonitas para o príncipe (nem que seja a custa de sacrifícios e riscos à própria vida, se submetendo a cirurgias plásticas, por exemplo), agradam o príncipe (fazendo todas as suas vontades), suportam tudo o que o príncipe faz (violência, principalmente) afinal, se perderem o príncipe, não são mulheres completas e nem são capazes de viverem felizes. Quando o príncipe “vira sapo” as meninas não sabem o que fazer, porque essa parte dos contos de fadas não são ensinadas nos livros nem na televisão. Com relação ao estupro, por exemplo, como ainda ensinamos que a Bela Adormecida pode se beijada pelo príncipe, desacordada, e sem consentimento? Isso configura um estupro, mas é ensinado nas casas, nas escolas, e passa a mensagem de que o consentimento não é necessário. E as músicas? O que dizem as letras que estamos cantando? E as propagandas? Porque mulheres servem como objeto para atrair a atenção dos homens para cervejas e carros? Enfim, há um longo caminho a ser percorrido para que a cultura machista e patriarcal seja superada”, reflete ela. 

 

 

Para se inspirar

O que elas têm em comum? A luta feminista diária

Conheça o exemplo de três mulheres jovens que fazem do feminismo um estilo de vida

 

O envolvimento de Gabriela Rotilli dos Santos, 22 anos, natural de Santo Augusto, com o movimento feminista se deu quando ela foi estudar em Santa Maria, ainda em 2010. A graduanda de História, logo que se mudou, teve contato com o coletivo Marcha das Vadias e com leituras sobre gênero no decorrer da trajetória acadêmica. Mesmo não estando organizada em nenhum coletivo, ela participa de grupos feministas que buscam compartilhar vvivências e apoia a mobilização dentro dos espaços da cidade, sejam eles formais (como o universitário) sejam fora deles, como atos, intervenções e oficinas.

 

A santoauguestense acredita que a importância de se debater feminismo se dá pelo fato de que as mulheres, apesar de terem conquistado arduamente muitos direitos, ainda se encontram em uma posição desigual com relação ao homem. “Acho importante destacar aqui que o feminismo não é um movimento único e coeso na sua totalidade, ele é plural e constituído de inúmeras ondas e vertentes que nem sempre dialogam ou concordam entre si, apesar de terem como grande pauta a luta por equidade de gênero”, destaca ela, que afirma também que a luta feminista não é só direcionada ao direito de as mulheres terem os salários iguais aos dos homens, quando desempenham as mesmas funções, mas sim sobre terem o direito de gerir o corpo como bem quiserem. “Nossa nossas roupas não podem ser interpretadas como convite e nosso corpo como algo a ser violado. Queremos ter direitos reprodutivos assegurados sem intervenção religiosa, pois estamos em um Estado laico. O feminismo serve para que nós, mulheres, entendamos que não somos rivais uma das outras, que é absurdo que sintamos medo ao andarmos de noite sozinha na rua, de falarmos em público, de denunciarmos crimes sem sermos deslegitimadas por argumentos moralistas que nos tiram a autonomia e nos infligem culpa”, explica Gabriela.

 

A luta por garantia e manutenção de direitos é constante e a estudante tenta, sempre que possível, atuar de uma maneira combativa e também didática em todos os ambientes nos quais convive, porque, para ela, a militância feminista não se descola da prática cotidiana.

 

“Não sofro com o racismo por não ser negra, não tenho as mesmas vivências e sobre mim não incidem as mesmas opressões e violências que uma mulher transexual, negra e pobre sofre. E é nisso que eu pauto a minha luta, em um feminismo que não é individual e que não restringe suas discussões e ações a espaços universitários. Dessa maneira, o diálogo com a comunidade LGBT, com o movimento/feminismo negro, com as comunidades periféricas, ativistas da luta antimanicomial e pessoas cujos corpos não se encontram em um padrão estético é, para mim, muito importante. Acredito que a nossa luta deve também dialogar com os homens para abrir espaços de discussão onde eles entendam que esse é um movimento protagonizado e construído por e para mulheres, e que o papel masculino deve se dar enquanto apoiador da causa, enquanto ouvintes e capazes de construírem por si próprios mecanismos de desconstrução do machismo nas suas variadas formas e práticas diárias”, destaca ela.

 

                Gabriela acredita que o empoderamento feminino é necessário, que é um exercício diário. “Empoderar-se é, sobretudo, resistir. Ser mulher nesse mundo não é fácil, mas é ainda mais difícil quando a gente se sente só e sem recursos, sem apoio, sem amor, quando a visão de amor que temos em nada se diferencia da violência. Ser feminista é ser capaz de identificar isso e, a partir daí, buscar apoio e seguridade, é agarrar a nossa dignidade entendendo que ela não é equivalente ao tamanho da nossa roupa, à com quantas pessoas nos relacionamos, à cor do nosso batom ou à nossa sexualidade”, complementa. 

 

“Acreditar no feminismo, é acreditar em igualdade.”

 

O engajamento de Débora Raquel Cavalheiro à causa feminista tem raízes na própria família, pois ela teve como referência mulheres fortes, como suas avós, que dentro de seu tempo e suas causas reivindicaram seus direitos, e sua mãe, que sempre foi uma feminista. “Aos meus 15 anos, eu não tinha consciência dessa palavra e estava muito longe de entender que minhas dúvidas e angustias eram as mesmas de muitas meninas”, lembra a arquiteta e urbanista, que só se “descobriu” feminista quando começou para trabalhar. “Aí eu pude vivenciar as diferentes formas que a sociedade se mostra apenas por você ser mulher, então o feminismo acabou sendo um movimento fácil de me engajar”, conta. Assim, a militância de Débora foi se intensificando, e, para ela, hoje o feminismo é uma causa de vida, é uma luta pela liberdade básica e pelos direitos que deveriam ser natos, mas não são.

 

Assim como Gabriela, Débora luta diariamente para ser reconhecida como indivíduo e, em suas ações, procura sempre enfrentar a ideia de superioridade e dominação masculina buscando ser respeitada enquanto mulher e se colocando na luta por uma sociedade livre de opressão. “Recentemente participei de um encontro alusivo ao mês da mulher na Unijuí, organizado por um movimento de mulheres feministas, o Coletivo Sou Minha, onde o tema central era o protagonismo e luta das mulheres. Tive o prazer de ouvir mulheres expondo suas vivências e também pude falar um pouco de outro ponto dentro da causa feminista, o ser mulher e ser negra dentro da nossa sociedade”, conta ela.

 

Débora lamenta o fato de algumas mulheres não perceberem a importância do feminismo enquanto movimento. “Talvez estas mesmas mulheres tenham tido o privilégio de nunca ter passado por alguma situação constrangedora apenas por serem mulheres. O que vem sendo questionado é a negação da palavra feminista”, reflete.

 

SOU MINHA!

 

Foi depois de ouvir uma piadinha machista na sala de aula que Bethina Rafaela Burckardt, 21 anos, acadêmica de Direito da Unijuí, resolveu procurar algumas colegas para propor a ideia de criar um coletivo. “Me senti tão ofendida e, ao mesmo tempo, tão sem voz para poder questionar tal atitude. No momento em que falei com as gurias, elas não só apoiaram como caíram de cabeça na ideia”, conta ela. O próximo passo foi o contato com o Diretório Central de Estudantes (DCE) da Unijuí, que deu um enorme apoio à causa. Assim, a ideia saiu do papel e, no fim do mês de março, em um evento em parceria com o DCE, foi lançado o coletivo SOU MINHA.

 

O coletivo foi criado com o objetivo de propor a desconstrução dos vícios criados pela sociedade patriarcal que se apresenta atualmente, para que, posteriormente, haja uma reconstrução livre de vícios e pre(con)ceitos a respeito do que se entende por feminismo. “O que se objetiva são mudanças. Mudanças através de diálogos, conversas, amostras culturais e ações sociais que visem oportunizar esse diálogo. Para haver mudança, é necessário dar o primeiro passo: enfrentar o assunto”, destaca Bethina.

 

O coletivo Sou Minha vem realizando diversas ações. “Iniciamos com um evento, em parceria com o DCE, onde trouxemos mulheres de diversos ramos profissionais e sociais para dar seu depoimento”, conta a estudante. O coletivo também realizou um piquenique no próprio campus para conversar sobre alguns temas para o movimento, e foi aí que surgiu a ideia de uma campanha nos banheiros do campus. “Foram deixadas caixinhas para depósito de absorventes e camisinhas (deixe um quando puder, pegue um quando precisar), juntamente com cartazes de frases feministas positivas sobre nós, mulheres. Estamos também realizando na escola Deolinda Barufaldi, Bairro Alvorada de Ijuí/RS, conversas com estudantes de sexto a nono ano sobre feminismo, coletividade e relações de gênero”, informa ela.

 

No dia 2 de junho de 2016  foi organizado o evento Por todas elas, por todas nós, contra a cultura do estupro e, ainda no mês de junho, foram realizados atos alusivos ao dia dos namorados, que orientaram as mulheres na identificação de relacionamentos abusivos.

 

Bethina acredita que a união das mulheres é fundamental para construção de uma sociedade igualitária. “Existe uma questão cultural histórica de que mulheres devem odiar umas as outras, de que não existe amizade de verdade entre mulheres, que sempre estamos competindo entre nós. Unidas podemos descontruir esse pensamento, pois mulheres juntas se fortalecem. Sozinhas não conseguimos, mas juntas a vitória é certa: uma se torna o apoio da outras, há uma empatia e amor”, acredita ela.

 

E é assim, através da voz, que a estudante tem a garantia de ver seus direitos respeitados dia após dia. 

 

 

Colocando o feminismo em prática

Perguntamos às nossas quatro entrevistadas desta matéria quais as ações diárias que podem ser feitas para combater a opressão das mulheres. Elas dão dicas valiosas. Confira!

 

Joice: “Eu diria que a primeira das ações passa pela educação em gênero de meninos e meninas, ou seja, devemos parar de reproduzir uma educação sexista, e passar a investir em uma educação que ensine para a igualdade e o respeito, independente do gênero ou da sexualidade. Claro, há medidas necessárias, como a punição aos agressores, a construção de redes de atendimento emocional e financeiro às vítimas, o empoderamento das mulheres, a qualificação profissional, o incentivo à participação política. Mas, na minha opinião, o ponto fundamental é educar para que construamos relações de amor e respeito, e não de medo, poder e violência. E isto não tem nada a ver com destruir famílias, como muitas vezes o senso comum costuma reproduzir. Isso tem a ver com construir famílias e vivências que se amam, respeitem e sejam felizes juntas, é o que deveria ser importante para toda a sociedade. Por isso, convido a todos e todas para se juntar nesta caminhada, rumo a um mundo com mais amor, mais justo, igualitário e livre”.

 

Gabriela: “Necessitamos urgentemente redefinirmos os conceitos de afeto, carinho e amor, isso porque nenhum deles combina com controle, ciúme e posse. As relações não devem machucar, tanto psicológica quanto fisicamente, devem ser lugar de conforto, cumplicidade, melhora e bem querer, nada menos que isso. A gente precisa parar de naturalizar as traições masculinas, de concebermos ela enquanto parte de uma natureza masculina insaciada pela mulher, a monogamia não deve ser apenas feminina, e quando é imposta somente à mulher é sinal de que a relação que vem sendo desenvolvida tem caráter abusivo. Acho que o primeiro passo é procurar apoio e aconselhamento com outras mulheres, porque, muitas vezes, não conseguimos identificar sozinhas que determinadas ações consistem em um tipo de agressão, isso porque o papel das Secretarias das Mulheres e demais órgãos públicos nem sempre são desempenhados com eficácia na hora de informar sobre esse grande leque que o conceito de violência engloba, e também porque os espaços destinados ao acolhimento de vítimas e denúncias nem sempre contam com profissionais habilitados a lidar com esse tipo de situação, tornando o ato de denunciar um obstáculo, e não um refúgio. É preciso que a população em geral, e não somente as mulheres, tenham uma aproximação maior com os recursos jurídicos que nos são cabíveis em determinadas situações, é preciso informar e formar desde cedo cidadãs e cidadãos capazes de identificar, fazer a autocrítica e transformar suas atitudes para melhores, e isso, novamente, deve ser uma das obrigações das variadas instâncias que deveriam nos representar. Destaco também a importância da criação de espaços exclusivos para mulheres, onde elas se sintam confortáveis para dividir suas vivências e desenvolverem redes de mútuo apoio, tendo assistência para que isso seja possível, da mesma forma, é de extrema importância que se tenham lugares para que os homens as escutem e sejam incluídos nessa discussão, porque as ações não devem ser somente reparativas. A sociedade e o poder público não podem tomar providência apenas depois de as pessoas se tornarem vítimas, devem sim direcionar suas ações para evitar que as violências ocorram e que sejam algo recorrente”.

 

Débora: “Tenho uma irmã de oito anos, um criança que adora brincar de boneca e eu não vejo problema nenhum nisso, mas ela também adora correr, pular e brincar de espiã, então eu quero que ela cresça sabendo que ela pode tudo isso, que ela é dela, e que quando tiver vontade de fazer algo, desde que isso não magoe outras pessoas, ela pode fazer, e se não quiser, não deve fazer. Começo assim, numa atitude tão simples, educando minha irmã para que seja uma menina, adolescente e mulher forte. Converso com meus familiares e amigos para que mudem seus pensamentos retrógrados, e eles mudam, porque a gente conversa e nos acrescentamos, nos tratamos como iguais. Nas minhas relações mais próximas, amorosa e mesmo de amizades, quero pessoas que, assim como eu, não tenham pensamentos preconceituosos, machistas, homofóbicos, racistas. Procuro trabalhar com profissionais e empresas que me tratem com respeito e igualdade. Realmente acredito que atitudes diárias transformam. Se a mulher perceber que está em uma relação onde sofre qualquer tipo de agressão (moral, verbal ou psicológica) deve saber que esse é o primeiro passo, reconhecer-se nesta situação. O próximo é procurar ajuda, conversar, pois é possível sair dessa e os relatos de quem passou por situações assim são muitos e sempre a resposta é de melhora. Ao presenciar uma situação de violência contra mulheres, não dá para se omitir”.

 

Bethina: “Uma mulher apoiar a outra é uma forma de combate muito importante, assim, nos fortalecemos como feminista e na luta, pois hoje o combate mais acessível e muito importante é não se calar: devemos nos defender, debater, tanto na família, no grupo do Whatsapp e na faculdade. E isso se torna mais fácil quando não estamos sozinhas”.

 

Cuidado com as microviolências!

A violência é um fenômeno que se manifesta de forma gradual, ou seja, seu grau de intensidade e crueldade costuma ir aumentando. Dessa forma, as microviolências, socialmente justificadas, estão na base da violência de gênero, do feminicídio e do estupro. Estas violências se manifestam como agressões físicas, mas principalmente como agressões psicológicas e morais. São elas:

 

• Xingamentos e desmerecimentos, como os costumeiros puta, vagabunda, incompetente, ou, como muitas vezes as mulheres são tratadas pelos maridos: feias, chatas, brabas, estressadas, nervosas.

• Quando a opinião da mulher é deslegitimada a partir do argumento de que ela é louca, de que está sensível, paranoica.

• Quando, em espaços de discussão, mulheres são interrompidas por homens que falam exatamente a mesma coisa que elas.

• Quando dizem que determinada ação é “de mulherzinha”, como se isso devesse constranger alguém.

 

Todas essas desqualificações morais e emocionais são o início, porque começam a desmoralizar e desqualificar a mulher. Esse processo é o primeiro tipo de violência e ele vai aumentando, porque perpetua uma relação de poder e de posse: a mulher é vista como um objeto que pertence ao homem, e, como um objeto, pode ser usado, abusado e descartado. Essa é a gênese do estupro, da violência e do feminicídio.

 

As microviolências tendem a justificar atitudes violentas no momento em que passam a culpabilizar as vítimas pelas violências sofridas pelas mesmas, isso quer dizer que: roupa, moral, embriaguez, horários ou lugares onde se encontravam as vítimas não justificam nem explicam estupro ou qualquer forma de violência. Mas é preciso atentar que o estupro não consiste somente no ato que envolve pênis-vagina, e nem só entre homens e mulheres. Ele consiste em qualquer atitude forçada de cunho sexual, havendo ou não penetração e pode ocorrer entre maridos e esposas (ainda que a Justiça tenha demorado a reconhecer isso), entre namorados ou companheiros esporádicos. Ele acontece a partir do momento em que a pessoa demonstra, seja através da palavra não ou de atitudes negativas, que não quer.